A trajetória de Alaíde Costa, uma das vozes mais sofisticadas e fundamentais da música brasileira, ganha um capítulo especial em Salvador. Entre os dias 23 e 29 de julho, A Noite de Alaíde, dirigido por Líliane Mutti, estreia na capital baiana em dois espaços carregados de significado: a Sala de Arte Cinema do Museu de Arte Moderna da Bahia, o MAM, na Gamboa, e o CineLankiana, em Cajazeiras, a primeira sala de cinema instalada em um território quilombola da Bahia. A escolha dos espaços para a estreia é em uma ação ativa da cineasta, assumidamente feminista e engajada. Também trata-se de um gesto simbólico, conectando o filme às histórias, memórias e comunidades negras, que tem percorrido debates pelo Brasil e Europa, discutindo colonização e racismo estrutural.
Cine Quilombola - Inaugurado pelo Instituto Audiovisual Mulheres de Odun (iAMO), o CineLankiana está localizado no Quilombo do Coqueiro Grande, em Cajazeiras, e nasceu com a missão de democratizar o acesso ao cinema em um território historicamente afastado dos equipamentos culturais. O espaço homenageia a yalorixá Lankiana de Nkosi e representa uma conquista inédita para o audiovisual brasileiro: uma sala de cinema construída dentro de um quilombo urbano, reafirmando o direito da população negra à produção, circulação e fruição de suas próprias narrativas.
A chegada de A Noite de Alaíde, de Liliane Mutti, ao CineLankiana reforça a o acesso ao cinema brasileiro.
O filme resgata a história de Alaíde Costa, cantora que atravessou décadas da música brasileira e foi uma das raras mulheres negras a ocupar um espaço central na história da bossa nova, movimento frequentemente narrado a partir de um olhar embranquecido. Ao devolver protagonismo à artista, o longa também reposiciona a memória cultural brasileira.
Essa dimensão se reflete igualmente na composição do elenco, formado em cerca de 70% por atores negros, reafirmando um compromisso com a representatividade não apenas diante das câmeras, mas na construção de um imaginário em que pessoas negras deixam de ocupar lugares periféricos para assumir o centro da narrativa.
A escolha de lançar o filme simultaneamente na Sala de Arte do MAM e no CineLankiana estabelece uma ponte entre dois importantes territórios culturais de Salvador. De um lado, um dos cinemas mais tradicionais da cidade; do outro, uma sala que nasce da força de uma comunidade quilombola e do protagonismo negro na produção audiovisual contemporânea. Juntos, esses espaços acolhem uma obra que celebra uma mulher negra cuja voz atravessou a história da música brasileira, mas que por muito tempo permaneceu à margem do reconhecimento e é recolocada no centro da narrativa.

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